segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
À vista de quem não observa
Certo dia um simples rapaz sentou-se na rocha, observou o que o rodeava e começou a pensar.
As nuvens taparam o sol. A chuva começou a cair. O rapaz molhou-se e deixou-se ficar. Pensava. O vento levou as nuvens. O sol voltou. O rapaz secou-se e deixou-se ficar. Pensava.
Ao anoitecer o rapaz levantou-se e foi para casa. Adoeceu. Explicou à mãe o que realmente aconteceu. A mãe não entendeu e levou-o a um médico. A mãe contou ao médico o que o rapaz lhe tinha contado. O médico não entendeu e aconselhou-a a levar o filho a um outro médico...
A história deixou de ser simples no dia em que o simples rapaz se sentou numa rocha.
A história complicou-se.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Lost in translation
Parecia uma conferencia de imprensa daquelas apresentações de um jogador de futebol, tantos eram os flashs. (Este aparte parece um pouco despropositado mas não é, pois toda a gente sabe que a palavra flash está associada a um único povo...)
O simpatico artesão explicou tudo num inglês perfeito, num francês perfeito e em mandarim - ou cantonês -, para mim, mais do que perfeito! E foi nesta altura que se ouviu um "bruaaa" no atelier. Quando o rosado holandês começa a explicar o método naquela lingua, a maior parte dos braços presentes fizeram descer as cameras e mostrar a cara dos sujeitos pela primeira vez. Eram pequenos chineses! A surpresa deles foi grande e lá começaram a acenar positivamente a cabeça a cada palavra do artesão, como quem diz: "sim, sim, é assim que se diz, sim, sim, boa, boa, ahhh, fixe, sim (agora imaginem chineses a fazer isto com movimentos chineses.)
E este acontecimento, naquele mesmo instante, fez transportar o rapaz portugues para uma situação paralela:
Era uma vez uma fábrica de calçado em Sta Maria da Feira. O operário de farda azul violeta, alto e com um tique de cabelo, explica a uma cambada de turistas, ao ritmo de flashs, como se fazem sapatos em Portugal. Finaliza após 2 minutos de conversa com uma mão na anca:
- "Está percebido?"
Dois jovens portugueses dizem que sim, oito ocidentais mostram cara de surpresa e os flashs continuam a disparar...
O casal francês
O casal português sobe as escadas do autocarro. Cumprimentam a guia.
Olham para as entranhas da viatura procurando um lugar para se acomodarem, acenam simpaticamente para os restantes turistas e sentam-se.
Pouco tempo depois, o motorista põe em andamento 10 chineses, 5 singapureanos, 2 americanos, 2 mexicanas e 2 portugueses. E um casal francês.
A guia pega no microfone e pergunta se todos percebem inglês. Todos percebem. O casal francês diz que não.
A guia começa então o trabalho dela - guiar os turistas pela historia do país - em inglês.
A guia repete então o trabalho dela - guiar o casal francês pela historia do país - em francês.
O casal francês começa então o trabalho deles - serem franceses - e começam a dormir um para cada lado!
A guia continuou o trabalho dela em inglês. E em francês.
O casal francês continuou a dormir.
Os outros continuaram a fazer o papel de turistas e houve um que contou a história mais tarde, no mesmo dia em que leu um artigo sobre "chauvinismo"...
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Banho
É pois! E a "Lisboa Gás" agradece...
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Pela manhã
Hoje, mal coloco a chave na ignição:
- "Aconteceu-me isso variadíssimas vezes ou mais"
Deixe ver se entendi. Aconteceu-lhe isso mais que variadíssimas vezes?
E só hoje pela manhã é que se lembrou de vir à rádio contar.
E eu ouvi. Sortudo.
Apertei o cinto.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Má disposição matinal
- Bom dia senhor. Vejo que hoje está mal "disposto". Que lhe aconteceu?
- Olhe lá, como é que sabe se estou mal disposto?
- Desculpe senhor, é que tem o pé direito no lugar da mão esquerda!
Num repente, o senhor esticou o braço e deu um pontapé no doente.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
A crise é Grande
Que tem esta palavra de tão assustador para nós portugueses? Que temem, estimados 9.999.999 concidadãos. Esta sempre foi vista como uma palavra bonita que forma frases bonitas e positivas. Sempre nos apoiámos nela. Quando tirávamos um 2 a Matemática: "Qual é a crise? No próximo período recupero, pai." Quando a menina bonita insistia em pedir-nos um 3 a jogar ao bate-pé, pensávamos: "Não há crise! Amanhã saco-lhe um linguado." Quando o preservativo rebentava e a namorada olhava para nós assustada, perguntávamos: "Há crise?"
A crise sempre nos deu ânimo e coragem para enfrentar o insucesso de ontem. A crise faz-nos andar de cabeça erguida hoje. A crise, porventura, aumentará a taxa de natalidade amanhã.
Estão a tornar a palavra num mártir para atingir um simples propósito: desviar a atenção do povo para as graves consequências da crise que anunciam.
Será a crise grave?
Grave é a boca da Manuela Moura Guedes, a tendência do Paulo Pedroso, a marreca do Venceslau Fernandes, a marreca da Vanessa Fernandes, a voz do João Malheiro, a voz do Nuno Guerreiro, o cabelo do Paulo Bento, o cabelo da Fátima Felgueiras, os fãs do Marco Paulo cujos filhos são fãs do Tony Carreira, as mamas da "entertainer" dos netos dos fãs de Marco Paulo cujos filhos são fãs do Tony Carreira, as mamas da Rosa Mota, o programa da Teresa Guilherme, o jornal "O Crime", a oposição, a soltura do Pinto da Costa, o abrupto blogue do Pacheco Pereira, o novo spot da Snickers, os amantes de Wrestling com mais de 15 anos, o PNR, o português do Jorge Jesus, o idioma do Manuel Machado, o Toy vestido com uma camisa da marca CR7, e muitos mais quilómetros de gravidades. Passando por aquele quilómetro onde o Castelo-Branco pede um broche à mulher no momento em que lhe muda a fralda.
A crise não é grave. A crise é Grande!
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A ideia é que tudo resulta com a palavra: PUNHETA!
Há coisas que não se explicam. Por exemplo, agora estou aqui feito parvo e não tenho puto de ideia sobre o que escrever. Por isso mesmo digo: há coisas que não se explicam. Não, não era isto! Entrei a soar mal! Há coisas que não se entendem! Era isto que queria dizer: há coisas que não se entendem. E também já li o que vai para trás. Admito que está a revelar-se numa bela merda de ideia esta de tentar escrever de cabeça vazia.
Mas tenho de revelar, escrevendo ainda mais, que está a tornar-se numa experiência libertina. Estou em modo de evacuação mental. Uma autentica purga que, julgo eu, me permitirá absorver novos conceitos de forma rápida. Vou escrevendo numa perspectiva de forçar qualquer coisa para provar - ou refutar - a minha teoria de que não se deve forçar nada a não ser quando estamos sentados na sanita e atrasados para o trabalho. E isso, tal como isto, poderá ser prejudicial ao canal anal.
Mas o que faço quando quero escrever? Parte tudo de uma ideia. Mas e depois? Vou tentar descobrir-me. Acho que é mais ou menos isto:
Imaginem a ideia. Agora imaginem o resultado. A ideia vê o resultado ao longe. Mas não se conhecem, certo? Ou seja, têm de se casar para a ideia resultar. Tenho uma ideia adolescente e quero que fornique com um resultado mais maduro o mais rapidamente possível. Mas antes do casamento? Porquê? Isso seria um incesto a todo o processo criativo. Exactamente, acho que é esse mesmo incesto que faz com que a virgem ideia dê em resultado. Porquê? Porque nada melhor do que uma queca em tenra idade para nos dar experiência, um pouco de confiança e descaramento. E é essa relação incestuosa que porventura dará origem a um filho bastardo: o desenvolvimento! Por fim, já temos uma ideia mais madura e satisfeita, e um desenvolvimento, sedento de leite materno, em crescimento. O resultado acaba por ficar feliz e propõe finalmente a ideia em casamento. Já no altar, levanta-lhe o véu e todos vêem a ideia beijar o resultado com o desenvolvimento nos seus braços. E serão felizes para sempre...
É isto que acontece quando escrevo.
Mas hoje, em consequência do vazamento mental a que me propus, apresentei uma menina ideia estéril a um senhor resultado. Conclusão: a ideia fodeu-se e o resultado ficou a masturbar-se.
Agora é aquela parte em que peço desculpa por ter feito perder o vosso tempo a ler uma ideia que resultou numa... punheta.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Amor e Guerra
Ao acompanhar o telejornal, a sua cara deu ar de dúvida:
- "Hugo Chavez foi hoje pescado pela polícia marítima quando se preparava para fazer parar um petroleiro com o seu barco pneumático. Já é a quinta vez este mês que este activo activista da "Greepeace Venezuela" interpela uma embarcação deste tipo, com uma bandeira na mão e uma fita verde na testa, em protesto pela subida dos preços do ouro negro. É de referir que as petrolíferas aumentaram o preço do petróleo nos últimos 30 dias, subindo de 2 para 3 cêntimos o barril"
- "Já a seguir não perca o discurso de George W. Bush, criticando ferozmente as empresas que fornecem material de paint-ball e onde admite também que gosta muito de jogar badminton fardado de marinheiro . Logo depois, em exclusivo, a entrevista a Castelo-Branco que deixou crescer o bigode e revelou a sua heterosexualidade recentemente. Dentro de momentos, não perca. Até já senhor telespectador e vá levar no cú, se tiver tempo."
Ããã!?O que foi isto? - pensou.
Decidiu apanhar ar e rumou ao café:
- Boa tarde. Era um café em chávena escaldada e com adoçante, por favor.
- Era? Já não é? Atrasado mental!
- Desculpe!? Como disse? Um café por favor! - respondeu, sem a certeza do que tinha ouvido.
- Com certeza, seu estupor de pessoa! Tome lá! Espero que queime bem a língua. Mongolóide!
Já tonto e amedrontado, saiu do estabelecimento sem beber o café, deixando 1€ em cima do balcão:
- Obrigado pela gorjeta ó porco!
Apressou o passo. O coração também. Dirigiu-se ao supermercado...
- São 2€, jovem cabrão. Tem cartão do elefante?
- Mas... não, não tenho cartão.
- É pena, pois enfiava-lhe a tromba pelo rabo acima e assim pagava menos! Passe para cá a nota e muito obrigado pela preferência. Volte sempre filho... de uma grande vaca.
E o clima de agressão durou o dia todo. A sua avó chamou-lhe besta e cara de cú fodido ao telemóvel e disse-lhe que tinha saudades de lhe dar uns belos chutos nas beiças; mais tarde foi escarrado pela filha do seu vizinho no elevador e ainda foi brindado pelo pai com um: "até mais logo seu merdoso."
A cabeça, pronta a explodir de incompreensão, roçou o desmaio. Fechou-se em casa.
Ligou de novo a TV e fez zappings atrás de zappings procurando desesperadamente a única realidade que conhecia.
O mundo estava virado do avesso, pendurado num estendal que não era o seu, preso com molas que nunca vira anteriormente.
Não havia guerras, não havia fome e todo o cidadão deste mundo tinha dinheiro para viver. O Iraque estava repleto de resorts, e sediava a "Opus Gay" do extremo oriente. Não havia crime nem prisões. Mas nada batia certo. Não se reconhecia no comportamento das pessoas. O mundo estava vazio de amor.
Tocaram à porta:
- Quem é?
- É o correio ó cara de caralho! Abre lá a puta da porta que não tenho o dia todo!
- Espere 5 segundos, por favor.
- Por favor? Por favor a merda! Despache-se seu labrego, e abra a porta imediatamente!
Pressionado pelo dia que teve até então, abriu a porta e, com os nervos alterados, sacou duma arma disparando-a automaticamente de olhos bem fechados. Tremolamente, ao abrir as palpebras, foi percorrendo um corpo cinzento estatelado no chão. Um homem careca e de cara simpática segurava um ramo de flores e um postal junto do coração. Apressadamente retirou-lhe a encomenda e leu:
"Esperamos todos que recuperes da depressão o mais rapidamente possível e que saias dessa vida solitária em breve. Não nos afecta nada essa tua decisão de mudares o sexo. O que nos preocupa são esses comprimidos que tomas. O rapaz mascarado de homem dos correios é o teu irmão mais velho que nunca conheceste. Na realidade ele é polícia. Têm muita conversa para por em dia. Espero que esta injecção de amor te dê força, e te livre dessa prisão"
- Polícia! Mãos ao ar...
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
O encarnado revela-se à sombra

Tiago, dá uma olhadela na foto outra vez. Mas olha bem...
Num colorido, ameno e movimentado dia de Inverno, ao cavalgar uma zebra a caminho da outra extremidade da estrada, um flash glaciar paralizou toda a vida que me rodeava. Toda a cor se mortificou num instante a par de um estranho eco que me invadiu o pensamento. O tempo não passava e os sentidos foram-se alterando para uma estranha vontade de acreditar:
- Que se passa? Deus, carregue aí no comando se faz o favor. O botão encarnado. É que desligou isto sem querer, certamente. Aproveite e carregue uma corzinha e ligue o Sol outra vez. Vá lá, tenho um amigo à espera do outro lado da estrada. Assobiei - Deus, veja lá se não foi o quadro que disparou. Pois. Claro, quase de certeza que foi isso. Puxe o botão encarnado para cima. Oi! DEUS!!! O encarnado, não se esqueça!
Senti o desconforto a sobrevoar-me o corpo até aterrar na base do meu pé esquerdo, dando origem a uma terrível cãibra. O frio descongelou um bocado de muco que prontamente começou a pingar. Em desespero:
- Ai ai, e agora? Deus, ajude-me lá. Já não estou a achar piada a isto. Dê aqui um jeitinho ao pé e assoe-me o nariz, ao menos.
Neste preciso momento, uma salada de murmúrios e conversas penetrou-me ouvidos adentro. Concentrei-me em isolar os ruídos e uma adulta voz logo se destacou:
- Rapaz! Que significa...
- Rapaz? Quem está a falar?
- Olha em frente, rapaz! Deixa-me acabar...
- O senhor até tem sentido de humor, mas não estou propriamente num bom dia. Claro que olho em frente, não consigo olhar para outro lado! Tenho lágrimas a escorrerem-me dos olhos por não conseguir fecha-los, percebeu? Quem é o senhor?
- Observa o banco ensombrado pela árvore chorona, rapaz. Sou...
- Sim, estou a ver. Quatro velhos sentados?
- É isso que vês, caro rapaz? Não interessa, só queria perguntar...
- São quatro velhos sim, estou a vê-los. Olhe lá, e trate-me por Telmo se faz o favor. Não gosto que me tratem por "rapaz". Faz sentir-me inocente, coisa que não sou!
- Eu sei que te chamas Telmo, inocente rapaz. Mas eu só...
- Já lhe disse... Como sabe o meu nome? Nunca travei conversa com velho algum sem ser da família. Qual dos velhos é o senhor?
- Estás equivocado, rapaz. Já falaste comigo. Eu é que nunca falei contigo a não ser hoje. Aqui. Agora, por favor...
- Mau! Não percebo. Mas qual dos velhos é o senhor, raios! Não tenho tempo para atura-lo. Ai a chatice!
- Tempo? Não tens tempo? És engraçado, rapaz. Sou o mais velho de todos, se é que te satisfaz a curiosidade. Agora, de uma vez por todas...
- A mim parecem-me todos iguais. Olhe, agora caía bem uma castanhinha assada. Estou a ficar esfomeado. Este cheiro está a originar-me uma baba estranha nos cantos da boca. Sabe, antes de atravessar a estrada, estive quase quase para comprar um canudo delas a esta velha que está a fazer negócio 5 metros atrás de mim. Nesse momento é que esta merda devia ter parado! Saciava a fome enquanto me mantinha quente. Não tenho sorte nenhuma, caraças. Desculpe lá o desabafo. Mas...
Num ápice, fui interrompido pelo som mais grave e autoritário que jamais ouvira:
- Cala-te! Por favor, rapaz! Deixa-me falar!
Com o corpo e a mente a vibrar de respeito, eu:
- Não percebo o porquê dessa gritaria. Fale o tempo que quiser, homem. É a única coisa que pode fazer de momento. Percebeu a piada? Fale lá, vá.
- Pronto rapaz, então o que te estou a tentar dizer, é que vim cá abaixo para te livrar da cãibra, do desconforto, da fome, acabar com as lágrimas e até assoar-te o nariz se for preciso, para poderes seguir a tua inocente vida em paz e te encontrares com o teu amigo que está atrás de mim. Ele também não está muito bem; o peso da máquina fotográfica deu origem a uma forte dor nos seus ombros e o pobre coitado não aguentará muito tempo.
- Ai sim? Veio cá abaixo? Para um velho de 90 anos acabadinho de cair de uma árvore, o senhor até está com bom aspecto. Caia mas é na real. Está mais inerte que um morto. Como é que...
- Porque não te calas, rapaz?
- Pronto, pronto.
- Qual era o diabo do botão, rapaz?
- Botão? Epá, não me diga... Ouviu essa conversa, foi? Oh amigo, pronto: era o encarnado.
- Sabes Telmo, sem saberes, deste-me a provar o sabor do desconhecido pela primeira vez.
- Porquê?
- Porque o único "encarnado" que conheço... SOU EU!
- Mas ainda não me disse!, qual dos quatro é o senhor?
- O Único que te observa, sempre... à sombra.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008
E na segunda?
- E qual foi a primeira em que estiveste?
- Foi na terceira.
- E na segunda, que fizeste?
- Na segunda? Normalíssimo! Fui pôr os putos à escola,tive a reunião semanal no emprego… o costume!
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
"Pernas" para que te quero...
Não há dois sem três... furacões, dizem os americanos.
Ontem apanharam a Tina Turner a correr, com uma mochila às costas, a caminho do Canadá:
- DonaTina, onde vai tão assustada?
- Fujo, ora essa! O Ike está de volta...
Educa...ralho!
"...controlamos o acesso à internet, da mesma forma que lhes ensinamos a não falar com estranhos, não fumar, não arrotar de forma gratuita, não faltar às aulas, não matar, etc. Vem tudo da educação que lhes damos"
Imaginei logo um tête-à-tête com o meu futuro filho:
- "Filho, sabes que o pai ficaria muito aborrecido se tu matasses alguém. Aproveito para te ensinar que faltar ás aulas, arrotar, fumar e falar com estranhos é igualmente muito feio!"
- "Está bem pai mas, se por acaso acontecer, qual é o castigo? Cortas-me a Net?"
- "Por exemplo, filho. Isso ou outros castigos semelhantes"
- "Muito bem pai, prometo que nunca mais arroto depois de fumar o cigarrito que aquele velho barrigudo, de barba branca e óculos fundo de garrafa, me oferece quando falto à aula de religião e moral!"
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Ultima hora: País “ás direitas” ameaça humanidade!
Existem, pelo menos, 1 milhão de seres humanos (por acaso, todos Portugueses) que apresentam uma patologia psicomotora grave. Os médicos ainda não sabem o que é em concreto, mas o seu efeito é nefasto. Sabe-se apenas que a doença se manifesta exclusivamente em homens (incluindo a Vanessa Fernandes), normalmente nos meses seguintes após estes completarem 18 anos. Diz-se que, aliada ao daltonismo e com contágio progressivo, esta enfermidade poderá causar o fim da humanidade ainda este Século.
O jovem, sem notar, começa por esticar o braço esquerdo e apertar o volante sensivelmente a meio quando, certo dia, sintoniza a frequência na rádio Orbital com o volume a 30. Anda nisto uns meses até que – já surdo - é surpreendido por um torcicolo diário no esternocleidomastóideo direito. No dia seguinte verifica-se a perda de sensibilidade no braço direito que descai constantemente até que os dedos direitos esbarram no travão de mão; depois, fortes dores no rim direito que fazem inclinar o corpo para o banco do pendura até o empurrar porta fora em andamento. Neste momento atinge o estado crítico. Surdo, solitário após ter assassinado a namorada e a ver a estrada na vertical, começa a chorar e tenta desesperadamente estacionar em espinha…
Os casos acabam sempre da mesma maneira: um GNR "ouve" um veículo mal estacionado na praceta, espreita pela janela e lá encontra o pobre rapaz com o braço esquerdo partido e com a face direita assente num vulcão de pasta amarelada que se ergue no banco do pendura (já se confirmou ser um misto de lágrimas humanas com quantidades bem razoáveis de cera).
Os anos passam, morrem os rapazes, morrem as raparigas e o mundo acaba.
Mas a Orbital não!
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Tudo errado, tudo certo, tudo longe, tudo perto
A Isa preparava o jantar enquanto a televisão temperava o início das nossas conversas com o avinagrado filme “Delírio em Las Vegas”. As conversas eram de uma normalidade pálida mas, mal começámos a jantar:
- “Olha! Vês? Tem um óptimo aspecto! Essa cena branca por cima do bife é “molho macho mel” não é?”
Minutos depois - já eu tinha devorado o bife, o macho e o mel – quando me pediu para lhe colocar uns álbuns no seu mp3. Tudo bem, fiz uma escolha e lá copiei as minhas sugestões. Logo se aprontou a testar:
- “Epá, gosto deste Nittin Sawhney! Em que género de música o enquadras? Isto é tipo Kid Rock, não é?”
E logo depois:
- “Olha isto é muito fixe. Estive aqui a ouvir uma faixa (“O atirador”) deste Lenine! Este gajo é brasileiro, não é? Bem me parecia.”
Um tempinho mais tarde, falando da vida dos sogros:
- “Sabes lá, à volta da piscina até colocaram um piso anti-aderente para não escorregarem.”
De seguida o entusiasmo pelo benefício que a empresa da namorada lhe concedeu recentemente:
- “Agora ela tem direito a 40% de desconto no biodiesel, vê lá. Altamente! Pena é que tenha comprado um carro novo… a gasolina.”
E lá desviou a conversa para terrenos de cultura geral:
- “Telmo, estive a ver o ranking dos mais ricos no mundo, naquela revista americana, a Erbs, e o Bill Clinton já não é o mais rico do mundo. “
E continuou com Maserali (suposta localização da fábrica da Ferrari), Malkovich (nº3 do ranking ATP), etc, etc, pormenores (não todos!) que fui registando no meu portátil enquanto falávamos (com o intuito de aproveita-los, de forma descontextualizada, no futuro).
Mas, antes de se despedir, num inesperado momento metamórfico, olhou para mim e:
- “Amanhã ganho o euro milhões e, antes de dizer à minha família, pago-te a casa, compro um carro à tua escolha e deposito uns milhões de euros na tua conta. Se quiseres continuar a trabalhar, isso é lá contigo. Férias não te pago pois vais sempre para onde eu for. Ouviste?!”
(ouvi perfeitamente; estava longe, mas ouvi-te de uma forma que nem imaginas)
Sorri e dei por mim bem-disposto. De que me interessam as falhas de 2 horas de comprimento, se ele as saltou em 10 segundos?
Entretanto o frenético filme deu lugar à paciente novela da TVI e pensei:
- Afinal o óleo trazia areia misturada.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Palavras a mais na idade dos "porquê"
1ª- Que ácido estaria deitado na língua do rapaz quando este escrevia a letra das Dunas?
2ª- Seria apenas Whisky?
Não vale a pena transcrever aqui a conjugação aleatória de palavras misturadas pelo “DJ Ruininho” nesta letra pois, infelizmente, 40% da população do nosso aculturado país a canta, pelo menos, uma vez por ano. Não vou fazer juízos de valor (para além destes que fiz nas linhas anteriores) porque também a cantei uma vez quando era novato, admiravelmente quando achei que já era tempo de misturar um pedaço de cannabis com um golo ou dois de Pisang Ambon. E um ser humano que casou tal bebida com uma droga tão ligeira, não deve sequer pensar no nome deste ser iluminado, quanto mais escrevê-lo!
Mas Rui Reininho, por favor, permita-me a ousadia:
Dunas não são nada como divãs, são apenas as carteiras da moda que a malta abria diariamente para tirar uns trocos - uma das vezes para comprar drogas leves e uma garrafa de licor "verde"... como eu era, quando cantei.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Uma questão de 9,69 segundos
- Boa! Ena pá, já ando ansioso; estou à espera disto há 4 anos.
- Então ás 11:00 espero-te lá. Olha, mas não te atrases muito, ok?
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Uma brisa de leste
Hoje domei o sonho. É verdade. O mais habitual é ser o sonho a gerir o tempo que leva a despertar aqui o rapaz, mas hoje antecipei-me.
Sempre considerei o sonho um autêntico biltre e a nossa relação nunca foi pacífica.
Quando era miúdo tinha pesadelos frequentemente; no mais recorrente encontrava-me num cenário caótico, em que juntamente com a minha família e amigos, fugia desesperadamente de um “serial-killer” que ia matando, um a um, essa gente que tanto amava. E eu sempre a fugir, a tropeçar, a chorar a morte de amigos e familiares, a fugir outra vez, mais mortes de familiares, mais choro, mais um amigo esventrado e tal! Horas nisto, pois o travesso deixava-me para último. Sempre! Quando finalmente enfrentava o sanguinário - já o cabrão tinha despachado parte da população de Alverca, Chelas, Olivais, Braga e, por vezes, Barreiro – cheio de raiva e confiante para acabar com a sua raça… acordava.
Mais tarde, já a tocar à porta da adolescência, tinha um sonho em que conhecia a menina da lagoa azul naquela ilha paradisíaca. Passava horas a tentar ganhar a sua confiança e a mostrar-lhe que era bastante melhor que o outro gajo que mais parecia o Marco Paulo versão ariana. Nadava mais que ele, pescava mais peixes, partia mais cocos e mergulhava de sítios mais altos; uma autêntica estafa aquele sonho. Quando finalmente os nosso corpos se aproximavam… acordava.
Portanto, é fácil de perceber que a minha convivência com o sonho nunca foi propriamente afectuosa.
Nos dias que correm sou uma pessoa adulta e, resultado disso mesmo, tornei-me mais tolerante e menos rancoroso. Já não me chateio com o sonho:
Deixa-o gozar contigo, Telmo! Não faz mal! – Penso, por vezes, quando acordo.
Mas hoje, passados largos anos, voltei a ter um pesadelo. Basicamente, sonhei que tinha apresentado a carta de demissão na minha empresa, a troco de uma excelente proposta de 600€ mensais, para trabalhar na "Brisa" da Moldávia.
Mais à frente, já no meu novo posto de trabalho, estava eu sentado - embrulhado num Anorak a ver os Jogos sem Fronteiras numa televisão de 10cmx10cm a preto e branco - quando um carro pára antes da cancela e uma mão se abre fora do vidro, mostrando-me uns trocos e um bilhete de avião: era o meu chefe a tentar convencer-me a voltar a Portugal.
Acordei logo, antes que aceitasse...
